A pessoa que cuido diz que já comeu, mas não comeu. Porquê?
A minha mãe insiste sempre que "já almoçou", mesmo quando sei que não comeu nada. Não sei se hei de insistir e arriscar uma discussão, ou deixar passar e ela acabar por não comer o dia todo.
Ouvir "já comi" de alguém que claramente não comeu é confuso e frustrante, mas não é mentira nem birra — é, quase sempre, a memória a falhar de uma forma muito específica e previsível na demência.
Porque acontece
A memória recente é normalmente a primeira a ser afetada na demência, o que significa que a pessoa pode genuinamente não se lembrar de ter comido (ou não) há poucos minutos ou horas. Além disso, as sensações internas de fome e saciedade também podem ficar alteradas — o cérebro deixa de enviar ou de interpretar corretamente os sinais que normalmente nos avisam que está na hora de comer. O resultado é uma pessoa convicta de que já comeu, porque para ela, subjetivamente, isso é verdade.
Estratégias práticas
- Não discuta nem corrija: dizer "não, não comeu" só gera confusão e conflito. Em vez disso, redirecione: "Vamos comer só mais um bocadinho, sim?"
- Crie uma rotina fixa de horários: refeições e lanches a horas regulares e previsíveis ajudam a estruturar o dia, independentemente da memória da pessoa sobre a refeição anterior.
- Use pistas visuais: deixar a mesa posta ou um lanche à vista pode ser um lembrete mais eficaz do que perguntar verbalmente.
- Aposte em refeições pequenas e frequentes: 5 a 6 pequenas refeições por dia tornam mais fácil garantir que a pessoa come o suficiente, mesmo que recuse uma ou outra.
- Registe o que foi comido: uma folha simples ou app no telemóvel ajuda a acompanhar a ingestão real, sem depender da memória de ninguém.
- Coma junto da pessoa: ver outra pessoa a comer pode estimular o apetite e servir de pista comportamental.
"Já não pergunto à minha mãe se ela quer comer. Ponho simplesmente o prato à frente dela e digo 'está pronto, vamos comer' — funciona muito melhor do que discutir se ela já comeu ou não."
O que NÃO fazer
- Não insista em "provar" que ela não comeu — isso pode gerar vergonha ou agitação.
- Não deixe passar refeições inteiras só porque ela disse que já comeu; redirecione com delicadeza.
- Não confie apenas na palavra da pessoa para decisões importantes sobre medicação que deve ser tomada com comida.
Quando procurar ajuda profissional
Se notar perda de peso, sinais de desidratação, ou se esta situação estiver a causar refeições insuficientes de forma persistente, fale com o médico assistente ou um nutricionista. Vale a pena também documentar a ingestão alimentar de alguns dias para levar a uma consulta — ajuda a perceber se é preciso ajustar suplementos ou a estrutura das refeições.