Sinto que estou de luto com a pessoa ainda viva. É normal?
A minha mãe ainda está viva, mas já não é a pessoa que conheci. Sinto uma tristeza profunda, como se já a tivesse perdido, e depois sinto-me culpada por pensar assim. Isto é normal ou há algo de errado comigo?
O que sente tem nome e é profundamente humano: chama-se luto antecipado. Não há nada de errado consigo; está a chorar perdas reais, ainda que a sua mãe esteja presente.
Porque acontece
Na demência, vamos perdendo a pessoa por etapas: a conversa, o reconhecimento, os gestos familiares. Cada perda é um pequeno luto. É natural sentir tristeza, saudade e até raiva por alguém que ainda vive, mas que já mudou muito. A culpa que sente costuma acompanhar este processo, mas não significa que a ame menos.
Estratégias práticas
- Dê nome ao que sente e permita-se sentir sem se julgar.
- Guarde e valorize os momentos de ligação que ainda existem, mesmo que pequenos.
- Fale com alguém de confiança ou procure um grupo de apoio a cuidadores.
- Faça uma caixa de memórias ou recorde quem ela foi, para honrar essa relação.
O que NÃO fazer
- Não se force a "ser forte" nem esconda a tristeza como se fosse vergonha.
- Não se isole: partilhar alivia muito este tipo de dor.
Quando procurar ajuda profissional
Se a tristeza for constante, o afetar o sono, o apetite ou a vontade de viver, procure o médico assistente ou apoio psicológico. A Alzheimer Portugal tem grupos de apoio, e a Linha SNS 24 (808 24 24 24) pode orientar.
"Chorei a minha mãe muitas vezes antes de ela partir. Perceber que isso era luto, e não frieza, ajudou-me a perdoar-me." — Cuidador anónimo