Como lidar com a incontinência com dignidade?
O meu sogro começou a ter episódios de incontinência e sinto que cada vez que o ajudo a trocar-se ele fica envergonhado. Como posso lidar com isto sem o fazer sentir-se humilhado?
A incontinência urinária e fecal é comum nas fases moderadas a avançadas da demência e está associada a alterações cognitivas que dificultam reconhecer a necessidade de ir à casa de banho a tempo, encontrar o caminho ou desapertar a roupa sozinho. É também uma das situações mais delicadas para a dignidade da pessoa, e a forma como o cuidador reage faz toda a diferença.
Porque acontece
A incontinência pode resultar da progressão da doença, mas também de causas tratáveis como infeções urinárias, obstipação, mobilidade reduzida que impede chegar a tempo à casa de banho, ou mesmo dificuldade em localizar ou reconhecer a sanita. Por isso, antes de assumir que é "normal" da demência, vale sempre a pena despistar causas reversíveis.
Estratégias práticas
- Rotina de idas à casa de banho: proponha ir à casa de banho em horários regulares (de 2 em 2 ou 3 em 3 horas), mesmo sem pedido explícito.
- Sinalização clara: coloque um sinal ou imagem na porta da casa de banho e mantenha o caminho bem iluminado e desimpedido, especialmente à noite.
- Roupa fácil de despir: prefira calças com elástico em vez de botões ou fechos, que atrasam o acesso à sanita.
- Produtos absorventes adequados: use fraldas ou pensos de incontinência ajustados ao grau de perda, trocando com regularidade para evitar irritação da pele.
- Preservar a privacidade: feche a porta, fale em tom discreto e evite comentar o episódio à frente de outras pessoas.
- Cuidado com a pele: limpe sempre com água morna e produtos suaves, e aplique creme barreira para prevenir maceração e feridas.
"Aprendi a trocar a minha mãe como se fosse a coisa mais normal do mundo, sem pressa e sem cara de aflição. Ela sente quando estamos incomodados, e isso só piora a vergonha dela."
O que NÃO fazer
- Não repreenda nem demonstre frustração visível pelo acidente — a pessoa não tem controlo voluntário sobre isto.
- Não fale do assunto à frente de visitas ou de outros familiares sem necessidade.
- Não restrinja líquidos como forma de "resolver" o problema — isso aumenta o risco de desidratação e infeções urinárias.
Quando procurar ajuda profissional
Se a incontinência surgir de forma súbita, ou vier acompanhada de dor, febre ou urina com cheiro forte, procure o médico para excluir infeção urinária. Um enfermeiro de cuidados continuados pode também ajudar a definir o melhor plano de produtos absorventes e cuidados de pele, e a articular eventual apoio domiciliário para esta tarefa.