Sinto-me culpado constantemente. Isto é normal?
Sinto-me culpada quase todos os dias, seja por me irritar, por querer um tempo só para mim ou por já ter pensado num lar. Isto é normal ou sou só eu?
A culpa é talvez o sentimento mais comum, e mais silenciado, entre quem cuida de um familiar com demência. Sentir-se culpado por se irritar, por desejar um momento de paz ou por sequer pensar num lar não faz de si uma pessoa má, faz de si um ser humano a tentar dar conta de algo extremamente difícil. Isto é muito mais normal do que pensa.
Porque se sente assim
A culpa do cuidador nasce muitas vezes de uma expectativa impossível: a ideia de que deveria conseguir fazer tudo, sentir-se sempre paciente e nunca precisar de nada para si próprio. Quando a realidade não corresponde a esse ideal, e nunca corresponde, porque ninguém consegue sustentar isso, a culpa surge para preencher esse espaço. É um sentimento que se alimenta do amor que sente, mas que acaba por se voltar contra si mesmo.
Tipos de culpa mais comuns
- Culpa por se irritar ou perder a paciência: reagir mal a um momento difícil não apaga todo o cuidado e dedicação que já deu.
- Culpa por querer tempo para si: precisar de descansar ou de fazer algo só seu não significa que se importa menos.
- Culpa por pensar num lar ou numa estrutura de cuidados: considerar essa opção não é abandono, é muitas vezes a decisão mais responsável e amorosa possível.
- Culpa por sentir alívio em pequenos momentos de pausa: esse alívio não significa que não ama o seu familiar.
O que pode fazer já esta semana
- Nomeie o sentimento sem o julgar: diga para si mesmo "estou a sentir-me culpado" em vez de tentar afastar ou negar essa emoção.
- Fale com alguém que entenda: um grupo de cuidadores ou apoio psicológico ajudam a perceber que este sentimento é partilhado por quase todos os que cuidam.
- Lembre-se dos seus direitos como cuidador: tem direito a expressar sentimentos, incluindo raiva e culpa, a cuidar da sua própria saúde mental e a ter momentos de lazer sem culpa.
- Separe o sentimento do facto: sentir-se culpado não significa que fez algo de errado, são coisas diferentes e vale a pena distingui-las.
"Levei meses a perceber que podia amar a minha mãe e, ao mesmo tempo, desejar um fim de semana sem responsabilidades. Uma coisa não anula a outra. Aprender isso foi o que me permitiu continuar."
Onde pedir ajuda em Portugal
O apoio psicológico está previsto no Estatuto do Cuidador Informal, reconhecendo precisamente o peso emocional que esta tarefa acarreta. Pode procurar orientação através do seu centro de saúde ou da Linha SNS 24 (808 24 24 24). Não precisa de carregar esta culpa sozinho, e procurar apoio para a processar não é fraqueza, é um dos direitos que tem como cuidador.