A personalidade dele mudou por completo. Para onde foi a pessoa que eu conhecia?
O meu pai sempre foi calmo e educado, e agora diz coisas duras, não tem paciência para nada e às vezes parece outra pessoa. Custa-me reconhecê-lo.
Ver a personalidade de um pai ou de uma esposa transformar-se é, para muitos cuidadores, mais doloroso do que os esquecimentos. E é importante começar por aqui: o que mudou foi o cérebro, não a vontade. As áreas cerebrais que regulam a paciência, a empatia e o filtro social são afetadas pela doença — em algumas demências (como a frontotemporal) são mesmo as primeiras a sofrer.
O que ajuda no dia a dia
Tente separar a doença da pessoa: quando ouvir uma frase dura, lembre-se de que é o sintoma a falar. Não é fácil, e não vai conseguir sempre — está tudo bem. Evite confrontar ou corrigir («antes não eras assim»): a pessoa não consegue voltar atrás por força de vontade, e o confronto só gera frustração dos dois lados.
Procure os momentos em que a pessoa que conhece ainda aparece — com música, fotografias, cheiros e rotinas antigas. A memória emocional resiste muito tempo: mesmo quem já não reconhece rostos continua a sentir carinho e segurança.
Cuidar do seu luto
Há um nome para o que sente: luto antecipado — chorar alguém que ainda está fisicamente presente. É real e merece espaço. Fale com alguém de confiança, com um grupo de cuidadores ou com apoio psicológico. Se as mudanças de personalidade forem súbitas ou muito acentuadas, fale com o médico assistente: por vezes há causas tratáveis (dor, infeção, efeitos de medicação) a agravar o comportamento.