Ouvir mal aumenta o risco de demência? A importância de tratar a audição
O meu marido ouve cada vez pior mas recusa-se a usar aparelho — diz que "é coisa de velhos". Li que a surdez aumenta o risco de demência. É verdade?
É verdade, e é um dos temas em que agir é mais concreto: há um problema identificável, e há uma solução que se compra e se usa.
O que diz a OMS
As guidelines recomendam que aparelhos auditivos possam ser oferecidos a adultos com perda auditiva, especificamente também para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência (recomendação condicional, certeza baixa — mas é das poucas intervenções com recomendação dedicada e um mecanismo plausível bem descrito). Além disso, o rastreio e a gestão da perda auditiva devem ser oferecidos em geral, como parte dos cuidados às pessoas mais velhas.
Porque é que ouvir mal afeta o cérebro
Três caminhos prováveis: o esforço constante para descodificar o que se ouve rouba recursos ao resto da cognição; quem ouve mal tende a isolar-se (e o isolamento é ele próprio um fator de risco); e a falta de estímulo auditivo pode contribuir para o declínio das áreas cerebrais correspondentes. Tratar a audição atua nas três frentes ao mesmo tempo.
Como ajudar quem recusa
A resistência do seu marido é comum — e costuma ceder mais à experiência do que aos argumentos. Sugira só uma avaliação auditiva, sem compromisso ("saber como estás, mais nada"); muitos centros fazem-na gratuitamente. Os aparelhos atuais são discretos, alguns quase invisíveis — nada como os do passado que ele provavelmente imagina. E o argumento que mais toca: não é pelo ouvido, é por ele — pelas conversas com os netos que está a perder, uma a uma, sem dar conta.
Um passo de cada vez
Se a avaliação confirmar perda auditiva, o período de adaptação ao aparelho exige paciência (semanas, não dias) — avise-o disso para não desistir à primeira. O médico de família pode encaminhar para otorrinolaringologia; em alternativa, os centros auditivos fazem avaliações diretamente.